EM 2014!: RELATO: CATAMARÃ AFUNDA EM MORRO E TRIPULAÇÃO NADA ORIENTA. 3 HORAS NO MAR!

MORREU UM. VEJA O RELATO DE MAURICIO SALES, UM DOS SOBREVIVENTES:  (Aconteceu em outubro de 2014)












"Caros Amigos,

Face às distorções publicadas pela mídia e atendendo aos pedidos de alguns, resolvi escrever meu relato sobre o acidente do Catamarã da Biotur, ocorrido por volta das 19:00h desse último domingo. 

Eu estava com minha namorada e saímos de Morro de São Paulo um pouco atrasados em relação à partida programada para 16:30h. Eram muitas pessoas para uma embarcação, então um primeiro lote partiu no Catamarã Biônica de Tinharé e nós ficamos no segundo e último lote embarcado no Catamarã Baía de Todos os Santos.
 A viagem de volta à tarde normalmente é ruim, pois o vento nordeste normalmente dá uma "arrepiada" no mar. Particularmente nesse dia o mar estava bastante agitado já no cais do Morro, quando comentei que ali deveria ter um pequeno quebra-mar para proteger o embarque. Tentamos nos acomodar no compartimento climatizado para passageiros, onde deixamos nossas bagagens, mas os impactos e o balanço me fizeram escolher um tipo de "varanda" na popa, onde os abalos eram menores e o ar livre supostamente melhor.
 O que vimos foi uma viagem absolutamente desconfortável, com ondas grandes abalando muito a embarcação. Achei que a embarcação estava indo muito rápido para um mar tão agitado. Comentei com Denise: "Essa embarcação parece bem construída, mas será que ela aguenta essas pancadas? Era melhor o comandante reduzir a velocidade." Na verdade, ele só reduzia em ondas muito grandes.
 Em menos de 20 minutos de viagem algumas pessoas começaram a ficar enjoadas. Na medida em que o enjôo piorava, elas ficaram totalmente apáticas e entregues à situação. Na popa, quem não enjoava com o balanço, ficava cada vez mais intoxicado com a fumaça de descarga dos dois motores a óleo diesel. 

Quando já estava escurecendo, ouvi um tumulto dentro do compartimento de passageiros e começaram a aparecer pessoas na "varanda" usando coletes salva-vidas. Começava ali meia hora de expectativa, com situações típicas de filme que achamos que nunca acontece com a gente. Pensei que era algum tipo de pânico sem sentido, mas não sabia que uma grande quantidade de água havia entrado pela proa ou bochecha de estibordo da embarcação, "lavando" o piso do lado direito (estibordo). Imaginei alguma onda que bateu e infiltrou pela porta lateral de embarque. A "varanda" foi enchendo de pessoas assustadas e então observei que a embarcação estava adernando para estibordo. Não acreditei ser nada sério e continuei onde estava, com Denise sentada num banco colado ao espelho de popa. Uma pessoa em treinamento da tripulação sempre falava para termos calma e que a situação estava sob controle. Passados alguns minutos, chegou um tripulante que entrou no compartimento do motor de estibordo e logo depois apareceu pedindo alguma coisa a um ajudante. Chegaram com um pano parecido com uma toalha, que era cortado em pedaços e levados para o porão do casco de estibordo. Em mais alguns minutos começou a sair fumaça branca do compartimento e imaginei que era a água (talvez do mar) evaporando no motor quente. O tripulante saiu do porão sufocado pela fumaça, fechando-o, e nesse momento o lado estibordo do nosso piso já estava na linha d'água. As pessoas, por iniciativa própria ou ajudadas pelo vendedor de água mineral, pegaram os coletes, quando coloquei um em Denise e fiquei segurando o meu. O barco continuou seu rumo, com a mesma rotação nos motores. Não havia lugar para todos na varanda, portanto a maioria ficou confinada no compartimento de passageiros, o qual tinha poucas opções de fuga. Algum tempo depois notei que o motor do lado avariado tinha parado e a embarcação foi adernando cada vez mais. Nós estávamos na linha central da embarcação (linha proa-popa) e as pessoas foram instintivamente se deslocando para o lado esquerdo (bombordo), tentando fornecer um contrapeso à embarcação. Mesmo estando na linha central do barco a água chegou aos meus pés, quando finalmente coloquei meu colete. Nessa altura, a força da água que vinha de dentro do compartimento de passageiros havia arrancado a porta de acesso, que ficou boiando e batendo na varanda com outros destroços. O motor de bombordo, na mesma rotação de cruzeiro, ainda arrastava a embarcação avante com o casco estibordo totalmente submerso. O Comandante mantinha o curso da embarcação, parecendo uma busca frenética para atingir a entrada da Baía de Todos os Santos. Mais tarde a água chegou às minhas "canelas", quando finalmente o segundo motor parou. O barco começou a adernar mais ainda e as luzes se apagaram. Foi uma gritaria e um pânico generalizado. Não ouvimos nenhuma ordem sobre pular na água e tentamos nos apertar mais para bombordo. Nessa altura quem realmente tinha o controle era o mar, que vinha com ondas batendo pelo lado naufragado do barco. Em uma das ondas a porta solta veio junto e bateu em umas senhoras que perderam o equilíbrio e desceram com o retorno da água. Isso provocou uma avalanche de pessoas escorregando para o lado naufragado, obrigando algumas pessoas a saírem por baixo d'água, já que a "varanda" tinha uma cobertura de fibra de vidro. Então as pessoas restantes, inclusive nós, começaram a pular no mar por volta das 19:00h.

Muitos não sabiam como usar os coletes, pois não receberam nenhum tipo de instrução. Alguns coletes estavam sem apito e todos sem algum tipo de iluminação ativa. Os botes estavam presos e pessoas procuravam facas ou tesouras para soltarem as cordas. Esses botes não são feito para embarcar, mas sim para que seja segurada uma alça com a mão enquanto o corpo totalmente submerso. Nós não tivemos acesso a nenhum dos botes. Falei com Denise que pulasse e ela pediu que eu pulasse primeiro, vindo em seguida. Quando ela colocou a cabeça para fora d'água para respirar uma pessoa pulou sobre ela, afundando-a novamente, e isso se repetiu por mais três vezes numa sequência alucinada de "caldos". Eu gritava o nome dela, mas não enxergava nada direito devido à escuridão. Só consegui identificá-la por sua voz quando me respondeu a uns 2 metros de mim, após as quatro imersões involuntárias que ela me relatou depois. Afastei os que estavam entre nós e consegui puxá-la daquela confusão. Não achei seguro ficar muito próximo ao barco, pois havia muito pânico, pessoas gritando que iam morrer, que não sabiam nadar. O cheiro de óleo diesel era forte e também fiquei com medo de incêndio ou explosão. Ela estava muito instável com o colete e ainda com acessos de vômito provocados pelo enjôo e quantidade de água salgada ingerida. Fiquei atento a ela e nos afastamos para evitar pessoas em pânico pulando sobre nós. Quando consegui equilibrá-la na água e o enjôo deu uma trégua a ela, não ouvíamos mais pessoas pulando no mar, somente gritos e choros de desespero.

Já estávamos a cerca de 100 metros da embarcação, quando consegui formar um grupo de 10 pessoas. Ondas passavam em direção à ilha e às vezes arrebentavam sobre nós. Estávamos longe da terra e muito mais da entrada da Baía de Todos os Santos. Percebi que a maré estava de vazante, mas tentei acalmar nosso grupo dizendo que estávamos senda levados pelas ondas para terra. Alguns queriam tentar nadar de volta ao barco, mas eu os desencorajei em função da correnteza que nos afastava rapidamente de lá. Falei que poupassem energia e se concentrassem para manter a calma. Oramos juntos um Pai Nosso, começamos a nos apresentar, mas nem todos tinham ânimo ou condições de falar. Eu disse que tinha sido instrutor de mergulho, orientei para que ficassem com a nuca voltada para a formação das ondas (pois não beberiam tanta água), dei dicas para combater câimbras e melhorar o equilíbrio com o colete. Lembro bem de duas pessoas que estava com muito medo, mas bastou a conversa constante com eles para acalmá-los. Naturalmente formaram-se algumas duplas no grupo e fomos nos mantendo unidos. Após meia hora na água, alguns apresentavam sinais de hipotermia, inclusive Denise que ainda foi acometida por alguns acessos de vômito. Fomos mordidos constantemente por algum tipo de crustáceo, parecido com pequeno camarão, que deixaram marcas nos nossos corpos. Mais tarde a lua saiu das nuvens e formou um reflexo fraco que possibilitavam ver silhuetas. Esbarrávamos em bagagens e um dos nossos gritou desesperado achando que eram corpos de vítimas. Na flor d'água vi passar um vulto de peixe grande à minha esquerda, há cerca de um metro e meio, mas não consegui visualizar barbatanas para identificação. Fiquei calado, coloquei Denise na flor d'água e boiei novamente por baixo dela, como em muitos instantes para lhe dar segurança e equilíbrio na água. Pensei comigo: "Eu era instrutor de mergulho, passei tantas horas no mar, atualmente faço um pouco de caça submarina, mergulhei ainda nesse ano à noite, e justamente agora um cação vai cruzar meu caminho?". Procurei esquecer esse evento e guardar energia, pois estava achando que só seríamos vistos depois que amanhecesse.

A partir das 19:00h, quando pulamos no mar, foram cerca de 2 horas até avistarmos a primeira embarcação, uma lancha cabinada de uns 32 pés. Cerca de meia hora depois outras duas embarcações chegaram: o Catamarã Biônica de Tinharé (já retornando do desembarque do primeiro lote de Morro em Salvador) e uma lancha da Capitania. Do momento em que vimos a primeira lancha, foi mais de 1 hora de agonia, pois eles ficavam perto do "nosso" Catamarã, a cerca de um quilômetro de nós. Apitávamos, dávamos instruções de nossa posição, mas não nos ouviam. As embarcações ficavam próximas e às vezes faziam alguns movimentos paralelos à Ilha de Itaparica, mas não se aproximavam de nós. Reclamei (e praguejei) que já era tempo de ter mais embarcações na área. Ficava inconformado, pois achava que duas das três embarcações que estavam lá deviam patrulhar a área. Finalmente, depois de mais de 1 hora, a primeira lancha a chegar ao local começou a navegar em nossa direção. Passava perto, mudava de rumo, até que finalmente chegou bem próximo de nós. Um casal partiu para a direção dela, foi resgatado e mostrou a direção do restante do grupo. Às 22:00h fomos finalmente resgatados por esta lancha, a Ilha Bela de uma empresa concorrente da Biotur, que foi enviada para lá a pedido da Capitania dos Portos e achou o ponto do naufrágio. Naufrágio? Tudo bem, o barco não afundou totalmente. Não foi a pique como dizem, mas à exceção de dois casais e o comandante, todos estavam na água, perto do naufrágio ou longe como nós. Para quem está com água até as orelhas, vendo idosos e adultos que não sabiam nadar, mães boiando e segurando crianças sem coletes, qual a diferença de naufrágio ou semi-naufrágio?

O resgate foi feito por pessoas comuns e não por pessoas treinadas do Salvar, ou coisa parecida. Após nosso resgate, participei da operação na Ilha Bela que ainda se estendeu por horas. Resgatamos uma senhora meia hora depois do nosso grupo e finalmente a esposa do senhor desaparecido, após mais meia hora. A lancha Ilha Bela com dois tripulantes resgatou ao todo 62 pessoas. Respeitando sua capacidade legal de 25 pessoas, foram efetuadas operações de transbordo para o Catamarã Biônica, o qual tem borda livre muito alta para efetuar resgate. Esse Catamarã, adequado apenas ao transporte de pessoas, deixou o local primeiro que a Lancha Ilha Bela. Ficamos por lá até cerca de 01:00h da madrugada de 2ª-feira, procurando pelo senhor desaparecido e com sua esposa a bordo, quando fomos orientados a seguir para terra. Mesmo assim, nosso lote de 19 sobreviventes foi o primeiro a desembarcar na Capitania dos Portos.

Antes de partirmos para Salvador passamos pelo catamarã totalmente vazio. O mesmo só tinha cerca de 30% de sua parte que normalmente boiaria acima da água. A violência do mar não dava condições a alguém ficar se apoiando pelo lado submerso e o casco intacto de bombordo tinha uma borda livre muito alta para acesso.

Até sairmos em direção a Salvador, a situação era diferente do que a mídia informou:
  • Não havia nenhum helicóptero sobrevoando a área do acidente;
  • Pouco antes de sairmos, chegou um rebocador (e não dois como informado pela televisão), seguido de uma lancha de praticagem;
  • Também só havia uma lancha da capitania e não duas;
  • O Catamarã Biônica não levou os 127 passageiros resgatados para terra, pois nosso lote foi o último da Lancha Ilha Bela e não quisemos passar para lá em função do risco na operação com passageiros convalescentes no mar agitado, principalmente a esposa do desaparecido. Tudo a contragosto da Biotur, querendo mostrar que o resgate foi totalmente executado por eles. Pelo visto, estavam mais preocupados com sua imagem do que com nossas vidas e segurança nessas operações de transbordo.

Além dos coletes, não tivemos nada além da fé em Deus para nos mantermos calmos e esperarmos por socorro por cerca de 3 horas no mar aberto e agitado, em plena escuridão. Acredito que após esse relato, muitos terão uma noção melhor sobre a gravidade desse acidente, cujo potencial de mortalidade poderia facilmente atingir a metade dos passageiros. Não é preciso esperar por mais acidentes com mortes de anônimos e/ou famosos, para que sejam tomadas as devidas providências. Ainda temos uma pessoa desaparecida, cuja vida é tão importante quanto a de qualquer político ou artista global. Espero ter sido suficientemente claro aos que acompanharam esse fato somente pela TV e jornais, mostrando que eles foram mal informados pelas "estórias" maquiadas, fazendo um acidente gravíssimo parecer um pequeno incidente (ou semi-naufrágio).

Grato,
Mauricio Andrade Sales" 

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