O acidente impediu Teori de dar explicações sobre o lado B de sua figura pública.

O acidente impediu Teori de dar explicações sobre o lado B de sua figura pública. Por Kiko Nogueira


Postado em 23 
Teori com Jobim (esq.) e Fernando Ernesto Correa (centro)
Teori com Jobim (esq.) e Fernando Ernesto Correa (centro)

Em julho de 1969, o senador Edward “Ted” Kennedy, irmão caçula de John e Robert, se envolveu em um acidente pavoroso.
Voltando de uma festa com sua secretária Mary Jo Kopechne, perdeu a direção de seu Oldsmobile, que derrapou e caiu de uma ponte.
Ele conseguiu nadar até a margem. Mary Jo não teve a mesma sorte: presa nas ferragens, afogou-se. Tinha 28 anos.
Ted era uma promessa do Partido Democrata e esperança do clã. Nunca conseguiu se candidatar para presidente. Considerado o favorito nas primárias de 1980, perdeu para o insosso Jimmy Carter, que levou uma surra de Reagan. Consolidou-se como o “leão do Senado”.
Passou as últimas décadas jurando que não estava embriagado quando o carro foi parar no rio. Arrependeu-se publicamente, mas não adiantou. Sua carreira afundou, na prática, naquela noite.
Um outro Teori Zavascki está vindo à tona desde que o Beechcraft King Air C90 de seu amigo Carlos Alberto Filgueiras mergulhou na baía de Paraty, oposto àquele que os brasileiros foram habituados a ver.
Não fosse a tragédia, não saberíamos que um ministro do STF cultivava amizade íntima com um empresário que tentou travar uma ação no STF. A mansão de Carlos Alberto Filgueiras, para onde Teori ia naquela tarde, está no centro de uma acusação de crime ambiental.
Filgueiras era sócio do BTG Pactual na empresa Forte Mar Empreendimentos e Participações, em cujo nome está o prédio ocupado pelo hotel Emiliano em Copacabana, no Rio.
Como relator da Lava Jato, Teori libertou André Esteves, sócio do BTG, em dezembro de 2015, determinando sua prisão domiciliar. Em abril, permitiu que ele voltasse a trabalhar.
Nelson Jobim, seu colega numa confraria que se reunia em Porto Alegre para “conversar fiado, tomar vinho e comer churrasco”, é membro do conselho do BTG. Também fazia parte dessa turma Fernando Ernesto Correa, sócio da RBS, investigada na Operação Zelotes.
“Era alguém absolutamente isento”, diz Paulo Odone, ex-presidente do Grêmio e ex-deputado estadual. Na política, Odone aumentou sensivelmente seu patrimônio declarado: foi de R$ 1,8 milhão em 2010 para R$ 8,7 milhões em 2014.
A namorada de Teori, Liliana Schneider, trabalha na rede Antonio Bernardo, joalheria usada por Sergio Cabral para lavar dinheiro, segundo a operação Calicute.
Um jurista ouvido pelo DCM diz que Teori Zavascki não era passível de ser corrompido. Mas admite que, eventualmente, o interessado em fazer tráfico de influência não precisa negociar nada explicitamente. “Basta contar que foi com Teori para a praia”, afirma.
Isso tudo não era escondido num armário lacrado. Não é como se ele colocasse um disfarce de Groucho Marx e se isolasse em Neverland. É que a mídia nunca se importou. Ninguém prestava atenção.
O Brasil é o país de Gilmar Mendes, não se esqueça. Alguns podem tudo. Ainda assim, mesmo com nosso alto grau de tolerância para com uma casta, Teori ficaria com uma satisfação a dar para a opinião pública.
Ted Kennedy sobreviveu ao acidente, mas virou, na prática, uma carta fora do baralho. Teori, caso tivesse escapado, teria de explicar cedo ou tarde, por exemplo, como pagava as diárias no Emiliano (R$ 1500 a diária no próximo fim de semana), se é que pagava, ou o que Maíra Panas estava fazendo na aeronave.
Poderia esclarecer por que, afinal, não avisou a segurança do STF sobre o passeio. Seria instado a explicar a natureza de suas relações perigosas.
Sob alguns aspectos, o destino de Ted Kennedy foi mais cruel.

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