BATATINHA: "ao mestre-bamba com carinho!"



Josevan Dutra: ao mestre-bamba com carinho!













(ARTIGO publicado no Correio 24 h em 05/08/2014)
Em meados dos anos 90, ainda estudante, morei na Residência dos Estudantes da Cidade de Itapetinga (Resita), no prosaico bairro Saúde, fértil armazém cultural cravado no Centro Histórico de Salvador.
Das muitas e agradáveis lembranças que guardo dessa época e lugar, uma em especial sobressai no meu pensamento nesse momento. Relembro as inúmeras vezes em que observava do alto da janela do pequeno quarto em que habitava, sobre o telhado do casarão antigo da Rua do Alvo, com vista para a Rua da Glória, o caminhar lento daquele senhor de cabelos prateados, muitas vezes usando um terno cinza, cruzando a Rua da Glória, indo ou vindo de sua residência, próxima ao Largo do Godinho, em direção ao Largo da Saúde, onde está a Igreja Nossa Senhora da Saúde e adentrava na Rua Jogo do Carneiro. Naquele ponto, logo se via o Bar Champagner do seu Zé. Na época era ponto de encontro de estudantes, músicos e moradores antigos do bairro. Atualmente, o bar funciona em um outro imóvel, com um outro nome, na mesma rua.
A figura esplêndida, que me refiro, é Oscar da Penha, o saudoso Batatinha. Poeta, compositor e cantor de samba gostava de batucar em caixa de fósforos, que usava também para compor. Compunha desde os 15 anos e cantava bem. Desde a adolescência começou a trabalhar como gráfico. Atuou nos jornais Diário de Notícias  e Estado da Bahia  e foi funcionário público da Imprensa Oficial, atual Empresa Gráfica da Bahia (Egba) onde aposentou-se como gráfico. Exímio artista, nasceu há 92 anos, em 5 de agosto de 1924, morreu em 3 de janeiro 1997, aos 72 anos, vitimado por um câncer de próstata.
Na década de 1940, Batatinha apresentava-se no Programa Campeonato do Samba, que se realizava no Cine Guarany. Em 1944, ganhou do locutor Antônio Maria, da Rádio Excelsior,  o apelido de Batatinha. Seu primeiro  samba foi Inventor do Trabalho e a primeira música gravada foi Jajá da Gamboa, parceria com José Bispo, gravada por Jamelão em 1954. Em 1969 lançou o 1º disco, Batatinha e Companhia Ilimitada. Em 1975, juntamente com Panela e Riachão, gravou o LP Samba da Bahia. No ano de 1976 lançou o LP Toalha da Saudade. Em 1993, lançou o disco   50 anos de samba. Compôs mais de 70 canções, deixou apenas quatro discos gravados. Ele foi o primeiro  compositor a inventar o samba-receita, notabilizado na canção O Vatapá, e o pioneiro a introduzir elementos da capoeira na canção popular nos anos 50.
Sou privilegiado por o ter conhecido. Sempre gentil com as pessoas, pelas ruas do bairro parava para conversar ou simplesmente cumprimentar um transeunte. Em outros momentos, recepcionava com alegria os que iam a sua residência. Inúmeras vezes eu e alguns colegas da Resita fomos lá. No local funcionava um bar administrado por um de seus filhos. Lembro que havia uma banca de sinuca, a parede era decorada com capas  de discos de vinis. Ouvíamos uma variedade de sambas. 
Algumas vezes, quando a escassa grana de estudante dava, comíamos uma maniçoba, prato pitoresco do bar. A nostalgia me invade e me faz lembrar de um outro momento, ainda na década de 1990, em que presenciei uma das raras homenagens que o grande Batatinha recebera em vida.  O Dia do Samba  foi realizado em sua homenagem, em frente ao Cruzeiro da Igreja de São Francisco, no Pelourinho, com a presença de Chico Buarque e Edil Pacheco.
O incrível talento de Batatinha pouco foi reconhecido pelo grande público, mas a sua genialidade sobrepõe qualquer ignorância cultural. Constitui-se uma lástima o fato do mercado midiático impor as regras e lançar ao ostracismo artistas valiosos, a exemplo de Batatinha. A sua arte, poucas vezes compreendida e valorizada, transpõe gerações e ganha a eternidade! Termino aqui fazendo-me valer dos seus versos: “Sou profissional do sofrimento, Professor do sentimento, Do amor fui artesão...”.
* Josevan Dutra é graduado em Filosofia pela Ufba  e mestre em Geografia pela Unicamp
Antonio do Carmo

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