O truculento Cunha

O truculento Cunha

Até no Truco, o blefe tem limites éticos. Reprodução
Até no Truco, o blefe tem limites éticos. Reprodução
Há um jogo de cartas muito popular, no Sul do País, conhecido como “truco”. Nele tudo é permitido. Especialmente, a trapaça, o blefe, a enganação e toda a sorte de mentira. Ganha a dupla que for mais ladina e souber gritar mais alto.  Normalmente, as partidas são marcadas por um berreiro infernal. “Truco caboclo véio! Ladrão dos meus tentos!” é como vociferam no Paraná.




Muito provavelmente, o presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha, jamais disputou uma partida de truco. Mas, ele leva jeito de profissional.
Ninguém demonstrou, até agora, tanto talento para trapacear no conturbado momento político vivido pelo País. De blefe em blefe, ele continua firme e forte no quarto posto mais importante da República.
Na última segunda-feira (dia 4), o ministro da Advocacia Geral da União, José Eduardo Cardozo, antecipou na defesa da presidente Dilma, na Comissão da Câmara que analisa o impeachment, um dos truques que Cunha pretendia aplicar contra seus adversários, no próximo dia 17, um domingo.
Eduardo Cunha: de blefe em blefe, ele continua firme e forte no quarto posto mais importante da República. Foto Blog Mario Magalhães
Eduardo Cunha: de blefe em blefe, ele continua firme e forte no quarto posto mais importante da República. Foto Blog Mario Magalhães
Por ordem de Cunha, seus apaniguados na Comissão do Impeachment tentaram fazer que o pedido fosse julgado em plena tarde de domingo. E, se tudo desse certo, com transmissão ao vivo, no programa do Faustão, na Rede Globo. Se a Record do bispo Macedo ou o SBT de Silvio Santos quisessem fazer o mesmo, melhor ainda.
A ideia acabou derrubada pelos lideres partidários e ate mesmo pela pouca vontade de parlamentares trabalharem no final de semana.
Qual a razão de tamanha esperteza? Os últimos levantamentos feitos pela assessoria de Cunha mostravam que entre os 65 integrantes da Comissão, 28 estavam fechados com o impedimento da presidente. Outros 30 eram favoráveis. Faltavam cinco (o presidente vota só para desempatar). Eram os indecisos. Tais números, é bom destacar, estão mudando dia-a-dia. São volúveis.
Cunha imaginava que os indecisos poderiam sair de cima do muro e bandear para o lado dele, casos se sentissem pressionados pela audiência das grandes redes de TVs no modorrento final de domingo.
Ele também imaginou que mandando para a lata do lixo o pedido de impedimento do presidente do PMDB, Michel Temer, estaria dando uma pernada nos seus adversários do Planalto. Por sorte, tinha gente de olho nele no STF e anulou a trapaça.
Se este processo de afastamento chegar ao plenário da Câmara para ser julgado recomenda-se atenção redobrada. Com o baralho na mão – ou melhor, com o regimento da Casa – Cunha faz coisas que até os mais experimentados jogadores de truco de São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul juntos teriam o atrevimento de fazer.
Por uma razão muito simples: mesmo entre os inveterados jogadores de truco existe um limite para a enganação. É o da fronteira da moral e da ética.
(*) Arnaldo César é jornalista.

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